- Referente ao espectaculo de Olga Roriz, Noite de Ronda -
MIL E UMA NOITES.
O imaginável de mil noites concretiza-se em “Noite de Ronda” pela mão, e coração, de Olga Roriz. Com a acentuada diferença entre influências techno e clássicas, o movimento apresenta contrariedades saudáveis.
Bailando, os vestidos compridos e evidenciados, coordenam-se disfarçadamente entre os homens, que de fraque se fazem notar. Há um querer e não querer, uma atracção e uma repulsa, entre mudanças musicais, como que se de desorientações sexuais se tratasse. O baile representando a heterossexualidade, o enamoramento, a conquista, a reacção o desapego, os colos; por outro lado nasce o techno que transporta os espectadores para o mundo da bissexualidade e homossexualidade, das claras provocações e chamares à atenção. Recorrendo a uma constante troca de pares, O.R. realça na sua obra, a pouca complexidade existente no mundo da conquista, exagerando apresentações e exibições marcadas pelo carácter sexual, num querer rápido da noite. Os corpos hirtos marcam uma presença exacerbada entre entradas e saídas de palco. A cortesia de olhares, imediatamente encontrados, nunca se perdem entre os pares, tanto de noite, como de madrugada. Há beijos estonteantes ocupando um cenário dançante. Os movimentos, esses, são suaves entre os vestidos e desvairados entre os corpos masculinos desnudados. As sombras num acinzentado de palco notam os contornos de silhuetas perfeitas. A perfeição de um corpo sem estrutura óssea – ou que isso aparenta – desenha curvas e contracurvas brutalmente bem conseguidas, tanto quanto o clássico mostrado de seguida, marcado pelo quaternário típico de música de discoteca. Os duetos masculinos, pela dotada força a eles pertencente, exibem-se em múltiplos malabarismos corporais, com uma utilização espacial incrível mas, contudo, numa utilização temporal intensa e demorada, tornando-se cansativa. Realçam-se corpos nus, ou partes deles, nunca com uma intenção sexual. Elas usam-se dos seus longos cabelos, e segregam toda a atenção para eles. Eles, por sua vez, num tom irónico, recorrem ao estigma dos locais poucas vezes privados, casas de banho. A confiança é retratada ao longo do tempo em pequenos momentos até que se torna necessário a representação clara do egocentrismo feminino, vão caindo e gritando pelos bailarinos como se de servos se tratassem. Todo o espectáculo reporta para a necessidade do outro, para a obrigação social da presença de um elemento na vida quotidiana das pessoas. O cenário conta com a prontidão de um serviço simples. Acinzentados transparentes deixam adivinhar quem entra em palco, prateados envolvem iluminação, e andaimes preenchem o imaginário da noite no avançar das horas, tudo planeado, sem nada deixar ao acaso, mesmo que não o pareça. “Noite de Ronda” acaba assim com uma das suas inspirações musicais, não apresentando um verdadeiro clímax, acabando sempre por ser disfarçado pela musica techno, que pode, de facto, vir a ser confundida como um ponto alto da obra.
Três estrelas
Ana Rita Crespo.
Introdução à critica da dança.
Noite de ronda.
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